Uma pesquisa conduzida pela neurocientista Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ganhou destaque no debate internacional sobre regeneração da medula espinhal.
Por Juba Paixão
A equipe da neurocientista desenvolveu a polilaminina, uma forma polimerizada da proteína laminina, que tem demonstrado potencial para estimular reconexões neurais após lesões graves. A versão polimerizada mantém essa arquitetura estrutural, ela cria um microambiente que favorece a regeneração de axônios interrompidos por traumas.
A proteína laminina é um dos principais componentes da matriz extracelular, a rede microscópica que sustenta e organiza as células nos tecidos do corpo humano. Sua estrutura tridimensional, semelhante a uma cruz, permite que ela atue como um verdadeiro “andaime biológico”: cada uma de suas extremidades liga-se a diferentes moléculas e receptores celulares, o que resulta a adesão, orientação e comunicação entre as células.

No sistema nervoso, essa arquitetura é fundamental para guiar o crescimento dos neurônios e a formação de conexões. A versão desenvolvida em laboratório, potencializa essa função ao formar uma rede mais estável no local da lesão medular, criando um ambiente propício para que fibras nervosas lesionadas voltem a crescer e restabelecer parte da comunicação interrompida entre cérebro e corpo.
Casos reais
Entre os pacientes citados pela imprensa está Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após acidente automobilístico em 2018. Segundo reportagens nacionais, após aplicação da substância em caráter experimental durante cirurgia emergencial, apresentou recuperação progressiva de movimentos.
Também foi divulgado o caso da atleta paralímpica Hawanna Cruz Ribeiro, que sofreu lesão cervical e relatou melhora de controle de tronco e membros superiores após o tratamento.
É fundamental destacar que esses relatos foram publicados em veículos de imprensa e apresentações públicas do projeto. Até o momento, os dados clínicos completos desses casos ainda aguardam publicação formal revisada por pares.
O que já foi publicado na literatura científica
Estudos experimentais com laminina polimerizada em modelos animais foram publicados em revistas científicas internacionais respeitadas, como o FASEB Journal, periódico norte-americano de referência em biomedicina.
Outro estudo preliminar que envolve pacientes humanos foi disponibilizado como preprint (ainda sem revisão por pares). Especialistas reforçam que apenas após publicação em periódicos consolidados, como o The New England Journal of Medicine ou o The Lancet, será possível consolidar definitivamente o tratamento no cenário médico internacional.
Houve mortes relacionadas ao tratamento?
Relatórios públicos indicam que dois pacientes faleceram após receberem a substância em regime de uso compassivo. As causas descritas incluem embolia pulmonar e choque séptico, complicações conhecidas em pacientes com lesões medulares graves.
Até o momento, não há comprovação científica de relação causal direta entre a polilaminina e esses óbitos, segundo informações divulgadas pelos responsáveis pelo estudo. Ainda assim, o monitoramento de segurança é parte central das próximas fases clínicas.
Como ter acesso ao medicamento?
Atualmente, a polilaminina não está disponível comercialmente.
O acesso ocorre apenas por dois caminhos:
Participação em ensaios clínicos oficialmente registrados: esses estudos precisam estar aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e registrados em plataformas públicas.
Uso compassivo mediante decisão judicial: em alguns casos, pacientes obtiveram autorização judicial para aplicação experimental da substância fora de protocolos clínicos formais.
Os ensaios clínicos no Brasil são registrados no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC), plataforma pública onde qualquer cidadão pode consultar estudos ativos, critérios de inclusão e centros participantes.
Especialistas alertam que pacientes e familiares devem evitar promessas de acesso fora desses canais oficiais.

“Não se trata de milagre”
Em declarações públicas à imprensa, a Dra. Tatiana Coelho de Sampaio afirmou:
A prudência é parte essencial da credibilidade científica. Não se trata de milagre, criamos condições para que o próprio organismo reorganize suas conexões. Precisamos cumprir todas as etapas científicas para garantir segurança e eficácia.”
Ela também reforçou que a expectativa deve ser acompanhada de responsabilidade científica e respeito às fases regulatórias.
Transparência e responsabilidade
A medicina regenerativa vive um momento de transição entre a esperança e a validação científica. A polilaminina representa um avanço relevante da ciência brasileira, mas ainda depende de:
- Estudos clínicos de fase 1, 2 e 3;
- Publicação revisada por pares;
- Replicação independente por outros centros de pesquisa;
- Avaliação regulatória completa.
Fontes:
Publicações experimentais no FASEB Journal
Plataformas de preprint científico (medRxiv)
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – autorizações e protocolos clínicos
Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC) – registro público de ensaios
Entrevistas públicas da Dra. Tatiana Coelho de Sampaio
Literatura biomédica internacional como The New England Journal of Medicine e The Lancet para comparação metodológica


