O futuro da mobilidade no Brasil começa a ganhar altitude, e com participação direta do Espírito Santo.
Por Juba Paixão
A partir de tecnologia desenvolvida na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), uma startup capixaba integra o ecossistema dos eVTOLs da Embraer, aeronaves elétricas de decolagem vertical que já acumulam milhares de encomendas no mercado global.
Com previsão de operação a partir de 2026, o projeto avança em ritmo mais acelerado do que grandes obras rodoviárias. No cenário atual, a mobilidade aérea elétrica tem potencial concreto de entrar em operação antes da conclusão da duplicação da BR-262.
Bilhões no céu e no asfalto: dois modelos, dois ritmos
O contraste entre os investimentos evidencia a mudança de paradigma. De um lado, a mobilidade aérea urbana avança com forte capitalização global. A Eve Air Mobility, empresa da Embraer responsável pelos eVTOLs, já captou mais de US$ 1,2 bilhão e conta com apoio do BNDES, com financiamentos superiores a R$ 1 bilhão.

O projeto já soma cerca de 3 mil encomendas no mundo, com entrada em operação prevista entre 2026 e 2027.
Do outro lado, a duplicação da BR-262, obra estratégica para o Espírito Santo, apresenta uma estimativa de investimento superior a R$ 8,6 bilhões, segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Denit). O projeto inclui novo traçado em cerca de 180 km.

Mesmo com esse volume expressivo de recursos, a execução segue condicionada a etapas complexas, como licenciamento, projetos executivos e processos licitatórios, o que amplia o horizonte de conclusão.
Diante desse cenário, a análise é direta: a inovação tecnológica avança em ritmo mais acelerado que a infraestrutura tradicional, e pode chegar primeiro ao uso real.
Da Ufes ao “carro voador”
A presença do Espírito Santo nessa transformação nasce dentro da academia. O projeto IARA (Intelligent Autonomous Robotic Automobile), coordenado pelo professor Alberto Ferreira de Souza, consolidou uma base avançada em inteligência artificial aplicada à mobilidade.
A partir desse núcleo, surgiram startups como a Motora.ai, considerada uma spin-off da Ufes, que atua no desenvolvimento de sistemas autônomos e inteligência embarcada, tecnologias essenciais para o funcionamento dos eVTOLs.
Os projetos receberam apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o que fortaleceu a pesquisa nacional em mobilidade inteligente.
Tecnologia que redefine o deslocamento
Os eVTOLs representam uma ruptura no modelo de transporte urbano. Com capacidade para até cinco passageiros e autonomia próxima de 100 km, essas aeronaves prometem reduzir drasticamente o tempo de deslocamento em áreas urbanas.
O sistema envolve:
- Operação em vertiportos;
- Integração digital de rotas;
- Evolução para voo autônomo.
Mais do que um novo veículo, trata-se de uma nova infraestrutura, menos dependente de grandes obras físicas e mais baseada em tecnologia e conectividade.
O Espírito Santo na nova geografia da inovação
A comparação entre a BR-262 e os eVTOLs revela dois caminhos distintos para o desenvolvimento:
- O modelo tradicional, baseado em obras físicas e prazos longos;
- O modelo tecnológico, orientado por inovação, capital e escala global.
Ao integrar o desenvolvimento de uma das tecnologias mais avançadas da atualidade, o Espírito Santo amplia seu papel estratégico. De corredor logístico, passa a ser também produtor de tecnologia de ponta.
Se antes o desenvolvimento chegava pelas rodovias, agora ele pode pousar verticalmente, e antes do previsto.
Fontes:
Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (gov.br) – dados da BR-262
BNDES – financiamento ao projeto eVTOL
Eve Air Mobility / Embraer – dados de mercado e encomendas
Reuters / CNN Brasil / Broadcast – captação de recursos e cronograma
UFES – Projeto IARA e inovação em mobilidade autônoma
Finep – financiamento à pesquisa tecnológica


