Existe uma imagem poderosa no universo da estratégia empresarial: a do barco que escolhe em qual mar vai navegar.
Por Juba Paixão
Em um, as águas estão vermelhas, não pelo pôr do sol, mas pelo sangue de quem briga pelo mesmo espaço, pelo mesmo cliente, pelo mesmo preço. No outro, as águas são azuis, calmas e inexploradas. Não porque sejam fáceis, mas porque poucos chegaram lá ainda.
Essa distinção foi criada pelos professores W. Chan Kim e Renée Mauborgne no livro A Estratégia do Oceano Azul (2005), e não é apenas uma metáfora bonita. É um convite a uma pergunta honesta: onde está o seu barco agora?

A maioria dos negócios nasce no mar vermelho sem perceber. O empreendedor olha para o vizinho, tenta ser um pouco melhor, um pouco mais barato, um pouco mais rápido. A disputa começa com entusiasmo, mas o que parece competição saudável, com o tempo, corrói as margens, esgota as equipes e apaga os diferenciais.
É o restaurante que abre ao lado de outro restaurante; a loja que disputa o mesmo corredor do shopping; a empresa de tecnologia que cria mais um aplicativo em um mercado onde já existem dezenas oferecendo a mesma coisa. Não que seja errado, às vezes, o mercado saturado ainda tem espaço para quem é realmente bom, embora a pergunta que fica é: até quando?
O problema não é competir, mas competir sem estratégia, sem diferenciação, sem consciência de que existe outro caminho.
Quando todo mundo está pescando no mesmo lago, o peixe que sobra vale menos. A sabedoria não está em ter a melhor vara; está em conhecer outros lagos.”
Navegar em oceano azul, principalmente para as empresas de tecnologia, é investir em conhecimento e aplicar o que a academia tem a oferecer. É ter a convicção de que as tempestades iniciais vão passar, desde que a solução e o negócio sejam consistentes e difíceis de copiar a rota. É assim que surgem as empresas que mudam o jogo: não as que vencem a batalha, mas as que escolhem outra guerra.
Tecnologia e inovação são, por natureza, o território mais fértil para esse movimento: um produto bem construído pode ser vendido para outros estados, para outros países, para outros continentes, sem precisar de um caminhão, de um porto ou de uma permissão alfandegária.
O valor viaja leve e quem trabalha nesse setor carrega consigo um dos ativos mais raros da economia contemporânea: o conhecimento, que não se deprecia, que se multiplica ao ser compartilhado e que gera empregos bem remunerados onde quer que seja plantado.
Há algo acontecendo no mar de empresas do Espírito Santo que passa despercebido para quem olha de longe. Um estado que sempre foi de passagem começou, nos últimos anos, a construir algo que não depende de geografia: um ecossistema de inovação que cresce com consistência, com apoio real e com uma ambição que não precisa gritar para ser levada a sério.
Com recursos por meio de editais, programas públicos de aceleração de startups, fundos de investimento com capital concreto e hubs de inovação que conectam universidades, empresas e governo, surge uma nova geração de empreendedores que já leva suas soluções para palcos internacionais.
O resultado é que investidores nacionais e internacionais começam a olhar para o estado com outros olhos. Não como curiosidade, mas como oportunidade. O estado deixa de ser coadjuvante no mapa da inovação brasileira, e quem constrói aqui sabe que chegou antes da onda. Não é sorte; é leitura de mar.
Então, onde está o seu barco?
Essa é a pergunta que fica. Para o empreendedor que ainda está pensando em onde construir sua startup. Para o profissional de tecnologia que ainda não percebeu o que está surgindo ao seu redor. Para o investidor que ainda associa inovação apenas aos endereços tradicionais. Para o jovem que acha que precisa ir embora para ser relevante.
O mar vermelho sempre existirá. Haverá quem prospere nele, sem dúvida, com muito esforço, talento e resiliência, mas existe outra escolha: começar com uma pergunta diferente, com um mapa diferente, com coragem de navegar por onde poucos ainda foram.
O solo capixaba não é apenas um lugar no mapa; é, cada vez mais, uma metáfora viva de que é possível construir em oceano azul, com consistência, propósito e a clareza de quem sabe que a maré está mudando.
A questão é: quando você vai ajustar as velas?


