13 de julho de 2026
Vitória, ES, Brasil

Ciência transforma resíduos da bananeira em cosméticos e projeta inovação capixaba

Com o foco na sustentabilidade e inovação, a startup Kemi Nanomateriais transforma resíduos agrícolas em cosméticos de alto valor e ganha projeção no cenário nacional.

Por Juba Paixão

Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), a  green tech de Vargem Alta desenvolveu tecnologia para aproveitar resíduos da bananeira, conquista premiação nacional e reforça o protagonismo do Espírito Santo na bioeconomia e na inovação sustentável.

O Espírito Santo vem consolidando sua posição como um dos estados brasileiros que mais investem na integração entre ciência, tecnologia, inovação e sustentabilidade para fortalecer o agronegócio e gerar novos negócios de base tecnológica.

A diversificação da produção agrícola, aliada à pesquisa científica e ao empreendedorismo inovador, tem impulsionado soluções capazes de agregar valor às cadeias produtivas, reduzir impactos ambientais e criar produtos de alta tecnologia a partir de resíduos antes considerados sem valor econômico.

Esse movimento ganha destaque com a trajetória da Kemi Nanomateriais, startup sediada em Vargem Alta, na região Sul do estado. Criada em 2022 com apoio da Fapes, por meio do Programa Centelha-ES, a empresa desenvolveu uma tecnologia capaz de transformar resíduos da bananeira em nanocelulose para aplicação na indústria cosmética, promove economia circular e inovação baseada em recursos renováveis.

A tecnologia deu origem à green tech B.Kemi, especializada no desenvolvimento de ingredientes sustentáveis para a indústria química, e também à marca de cosméticos Muzie, que recentemente conquistou o 3º lugar no Clean Beauty Awards, premiação realizada durante a Naturaltech e considerada uma das principais do país no segmento de beleza limpa e sustentável.

Segundo a fundadora da startup, a doutora em Ciências Karla Feu, a principal inovação consiste na produção de celulose microfibrilada a partir do tronco da bananeira, substituindo a madeira de eucalipto, matéria-prima tradicionalmente utilizada para obtenção desse material.

Nossa inovação foi desenvolver uma nanocelulose a partir dos resíduos da bananeira, em vez da madeira de eucalipto, que é a matéria-prima mais utilizada atualmente. Assim, transformamos um passivo agrícola em um ingrediente de alto valor para a indústria de cosméticos, promovendo a economia circular e reduzindo a dependência de matérias-primas importadas em um dos maiores mercados consumidores de cosméticos do mundo”, explica Karla Feu.

O principal produto da empresa é a Green Silk BK, uma celulose microfibrilada produzida a partir do aproveitamento do pseudocaule da bananeira. A pesquisadora destaca que a tecnologia nasceu durante o Programa Centelha-ES e foi sendo aperfeiçoada ao longo dos anos por meio de novos editais de inovação da Fapes.

A tecnologia começou a ser desenvolvida no Programa Centelha e foi aprimorada com o apoio dos editais NIS e Cluster da Fapes, que possibilitaram a criação de novas aplicações para a indústria de cosméticos. O ingrediente também é a base da nossa marca de cosméticos, a Muzie, que conquistou o 3º lugar no Clean Beauty Award, uma das principais premiações brasileiras voltadas à beleza limpa e à sustentabilidade”, afirma.

Ciência aplicada ao agronegócio amplia oportunidades para a bioeconomia

A iniciativa representa uma das aplicações mais promissoras da bioeconomia no Espírito Santo. Ao utilizar resíduos agrícolas abundantes na cadeia produtiva da banana, uma das culturas importantes da agricultura capixaba, a tecnologia reduz desperdícios, gera novas fontes de renda para o setor rural e amplia o aproveitamento sustentável da biomassa.

O desenvolvimento de materiais avançados a partir de resíduos vegetais também demonstra como a pesquisa científica pode criar alternativas para substituir matérias-primas convencionais por soluções renováveis, fortalecendo cadeias produtivas mais sustentáveis e alinhadas às demandas da economia de baixo carbono.

Nos últimos anos, o Espírito Santo tem ampliado investimentos em pesquisa, inovação e empreendedorismo tecnológico, incentivando projetos que aproximam universidades, centros de pesquisa, startups e empresas.

Na agricultura, esse ambiente tem favorecido o desenvolvimento de soluções em biotecnologia, nanotecnologia, agricultura de precisão, bioinsumos, automação e economia circular, aumentando a competitividade do setor agropecuário capixaba.

Apoio da Fapes impulsionou todas as etapas do desenvolvimento

Desde sua criação, a Kemi Nanomateriais recebeu apoio da Fapes por meio dos editais Centelha-ES, Negócios de Impacto (NIS) — ciclos 1 e 2 —, Apoio a Clusters Econômicos — fases 1 e 2 — e Tecnova 3.

De acordo com Karla Feu, a política de subvenção econômica foi determinante para transformar uma pesquisa científica em um produto disponível no mercado.

O apoio da Fapes foi essencial em toda a nossa trajetória. Desde o Centelha, quando ainda tínhamos apenas a ideia do projeto, já fomos contemplados em seis iniciativas de subvenção. Cada edital permitiu avançar uma etapa da tecnologia: no NIS, adaptamos o produto para a indústria de cosméticos; no Cluster, desenvolvemos uma nova aplicação biodegradável; e, agora, no Tecnova, estamos ampliando o potencial da tecnologia com novos ingredientes para expandir o portfólio da B.Kemi.”

A pesquisadora ressalta que a criação da marca Muzie representa a etapa de transferência da inovação para o mercado.

A marca de cosméticos Muzie nasceu para levar ao mercado as tecnologias desenvolvidas pela B.Kemi. Hoje produzimos os ingredientes em nossa fábrica, em Vargem Alta, equipada com apoio dos editais da Fapes, etapa que foi decisiva para transformar a inovação tecnológica em produtos comercializados.”

O reconhecimento nacional obtido no Clean Beauty Awards reforça o potencial da ciência produzida no Espírito Santo para gerar tecnologias sustentáveis com impacto econômico, ambiental e social, demonstrando como investimentos públicos em pesquisa e inovação podem acelerar o surgimento de empresas de base tecnológica capazes de competir em mercados de alto valor agregado.

Fontes:

Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).

Informações e entrevistas concedidas pela startup Kemi Nanomateriais e pela fundadora Karla Feu.

Programa Centelha-ES.

Editais Fapes: Negócios de Impacto (NIS), Apoio a Clusters Econômicos e Tecnova 3.

Naturaltech – Clean Beauty Awards.

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