24 de abril de 2026
Vitória, ES, Brasil

Cientista Tatiana Coelho de Sampaio é eleita Mulher da Inovação do Ano em enquete do onPost

Após quase três décadas de pesquisa, cientista brasileira desenvolve molécula capaz de estimular a regeneração da medula espinhal e reacende a esperança de pacientes que voltaram a caminhar, treinar em academias e até abraçar novamente suas famílias.

Por Juba Paixão e Fátima Cordeiro

No mês dedicado às mulheres, uma enquete realizada pelo jornal onPost entre leitores, pesquisadores, médicos e agentes do ecossistema de inovação escolheu a cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio como a Mulher da Inovação do Ano.

Professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana lidera um dos estudos mais promissores do mundo no campo da regeneração do sistema nervoso, com foco em lesões da medula espinhal.

Na enquete do onPost “Mulher da Inovação do ano”, os nomes indicados foram avaliados com base em critérios que consideram a contribuição efetiva para o avanço da ciência, da saúde, da tecnologia e da inovação no Brasil. Entre os principais pontos analisados estão:

Relevância científica ou tecnológica: impacto das pesquisas, projetos ou iniciativas no avanço do conhecimento ou no desenvolvimento de novas tecnologias;

Casos e resultados comprovados: existência de evidências, estudos, aplicações práticas ou resultados documentados que demonstrem a efetividade das iniciativas;

Inovação e originalidade: desenvolvimento de novas soluções, métodos, produtos ou abordagens capazes de gerar transformação em áreas estratégicas;

Impacto social: contribuição direta para a melhoria da qualidade de vida da população ou para a solução de desafios sociais relevantes;

Reconhecimento institucional ou acadêmico: participação em projetos de destaque, publicações científicas, prêmios ou liderança em instituições e organizações.

Formação e inspiração de novas gerações: atuação na educação, na orientação de pesquisadores ou na divulgação científica;

Alcance e projeção das iniciativas; impacto nacional ou internacional das pesquisas, tecnologias ou projetos desenvolvidos;

Compromisso ético e científico – respeito aos princípios da ciência, da transparência e da responsabilidade social no desenvolvimento e na comunicação das iniciativas.

A pesquisa

A base da descoberta é a polilaminina, uma molécula inspirada na proteína laminina, capaz de estimular conexões entre neurônios e favorecer a regeneração neural.

Os resultados iniciais dos estudos clínicos já chamam a atenção da comunidade científica internacional. Em testes realizados com pacientes paraplégicos e tetraplégicos, seis dos oito participantes recuperaram algum nível de movimento, e um deles voltou a caminhar de forma independente após ter perdido totalmente a mobilidade.

Mais do que números, porém, os avanços representam algo profundamente humano.

Para muitos pacientes, a pesquisa tem significado uma segunda chance de vida.

Gestos simples, antes considerados impossíveis, começam a reaparecer: levantar da cama sem ajuda, dar alguns passos, abraçar novamente um filho ou os pais, ou até voltar a frequentar uma academia.

Quando o primeiro movimento volta

Entre os relatos mais emblemáticos está o do bancário Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após um acidente de carro em 2018.

Participante de um dos tratamentos experimentais com polilaminina, ele começou a recuperar movimentos gradualmente durante o processo de reabilitação. Meses depois, voltou a caminhar e retomou atividades físicas, inclusive treinando novamente em academia, algo que parecia impossível após a lesão.

Em entrevista à imprensa, Bruno resumiu o significado dessa recuperação:

“Eu sou uma prova viva de que isso funciona. Em menos de um ano e meio recuperei praticamente tudo que tinha antes do acidente. Hoje sou 100% independente.”

A retomada da autonomia trouxe também momentos de intensa emoção na vida pessoal. Voltar a abraçar familiares e amigos, algo que parecia definitivamente perdido após a lesão medular, tornou-se um dos símbolos mais fortes de sua recuperação.

O corpo reaprendendo a responder

Outro caso divulgado em reportagens sobre a pesquisa é o de Pedro Rolim, que sofreu uma lesão na medula espinhal e perdeu os movimentos das pernas.

Após receber a aplicação experimental da polilaminina, os primeiros sinais de recuperação começaram a aparecer durante os exercícios de reabilitação. Ao lembrar o momento em que percebeu a resposta do corpo, ele descreveu a surpresa:

Quando comecei a sentir a perna responder durante os exercícios, foi algo difícil de acreditar. Parecia que o corpo estava reaprendendo.”

A esperança que nasce na reabilitação

Histórias semelhantes surgem em diferentes regiões do país. Em Curitiba, João Luiz Miquelini, de 70 anos, que fraturou a coluna após uma queda e perdeu os movimentos da cintura para baixo, recebeu a aplicação da substância em um hospital público e iniciou fisioterapia poucos dias depois.

Mesmo no início do processo de reabilitação, ele falou sobre a expectativa de recuperar a mobilidade:

Quando eu bati no chão, já não senti mais minhas pernas. Mas eu tenho muita esperança de voltar a andar.”

Casos como esses ajudam a dimensionar o impacto humano por trás da pesquisa. Para pacientes que durante anos ouviram que não haveria possibilidade de recuperação, cada pequeno avanço representa muito mais do que um resultado científico: representa a retomada da autonomia e da esperança.

Décadas de pesquisa

A trajetória científica que levou à descoberta começou ainda na década de 1990.

Desde 1998, Tatiana e sua equipe investigam o papel da laminina na regeneração do sistema nervoso e as formas de estimular neurônios adultos a restabelecer conexões após lesões graves.

Após anos de experimentos em laboratório e estudos pré-clínicos, os pesquisadores conseguiram desenvolver a polilaminina, uma estrutura molecular capaz de estimular o crescimento de novas conexões nervosas na região lesionada da medula.

O avanço representa um dos caminhos mais promissores da chamada medicina regenerativa, área da ciência que busca restaurar funções perdidas do corpo humano.

A laminina é como um colar de pérolas: quando arrebenta, ficam só as pérolas soltas” 

Em entrevistas recentes, a cientista destacou que o reconhecimento público é resultado de décadas de trabalho. Em conversa com a Forbes Brasil, afirmou:

Hoje sou reconhecida, mas nem sempre foi assim”.

A pesquisadora também ressaltou que a polilaminina ainda está em fase de validação científica, embora represente um caminho promissor na regeneração da medula espinhal, como explicou durante participação no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Reconhecimento internacional

O impacto da descoberta vem projetando a pesquisa brasileira no cenário internacional da inovação em saúde.

O trabalho da cientista tem sido destacado por instituições acadêmicas, centros de pesquisa e veículos de comunicação especializados em ciência e tecnologia.

O reconhecimento também se reflete em homenagens públicas e manifestações de apoio da comunidade científica e médica.

A escolha de Tatiana Coelho de Sampaio como Mulher da Inovação do Ano, na enquete promovida pelo onPost, reforça não apenas o valor de sua pesquisa, mas também a importância da ciência produzida no Brasil.

Ciência que transforma vidas

Participantes da enquete destacaram que um país onde a ciência frequentemente enfrenta desafios de financiamento e estrutura, a trajetória da pesquisadora simboliza persistência e dedicação.

São décadas de investigação conduzidas dentro de uma universidade pública que hoje começam a revelar resultados capazes de mudar o destino de milhares de pessoas.

Porque, em alguns casos, inovação não significa apenas tecnologia; significa voltar a andar, recuperar movimentos e abraçar novamente quem se ama.

Os números da pesquisa

Tempo de pesquisa
 27 anos de estudos científicos
As investigações sobre a laminina e a regeneração do sistema nervoso começaram no fim da década de 1990, com experimentos em laboratório que evoluíram para estudos pré-clínicos e, posteriormente, aplicações experimentais em pacientes.

Pacientes tratados em estudos iniciais
8 pacientes com lesões na medula espinhal participaram de tratamentos experimentais.

Resultados observados
6 pacientes apresentaram algum grau de recuperação motora, com respostas neurológicas detectadas durante o processo de reabilitação.

Recuperação mais significativa
1 paciente voltou a caminhar de forma independente, após ter perdido completamente a mobilidade.

Impacto científico
A pesquisa investiga o potencial da polilaminina, molécula inspirada na proteína laminina, capaz de estimular conexões entre neurônios e favorecer a regeneração neural.

Fontes:

Instituições científicas

  • Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino
  • Fundação Oswaldo Cruz
  • Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
  • Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

Revistas e portais científicos

  • Nature
  • Science
  • Scientific American
  • The Lancet

Veículos brasileiros de ciência

  • Agência FAPESP
  • Revista Pesquisa FAPESP
  • Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Previous Article

Mulheres na Indústria: 1.500 vagas gratuitas em cursos de tecnologia

Next Article

Espírito Santo abre 2026 com o segundo maior crescimento industrial do Brasil

You might be interested in …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *