Enquanto o mundo disputa empresas, talentos e investimentos em tecnologia, o Brasil corre o risco de aumentar o custo justamente de quem deveria ajudar a construir sua próxima geração de riqueza
Por Juba Paixão
O Vale do Silício tornou-se símbolo mundial da inovação não apenas porque reuniu grandes universidades, cientistas e empreendedores, mas porque ali foi construído, durante décadas, um ambiente capaz de aproximar conhecimento, capital, tecnologia e empresas.
Enquanto algumas das principais economias do mundo disputam centros de pesquisa, inteligência artificial, semicondutores, data centers, startups e profissionais altamente qualificados, o Brasil ainda trava outra batalha: tornar economicamente viável empreender, inovar e crescer.
E essa diferença deveria nos preocupar, pois quem vive o cotidiano do setor de tecnologia conhece uma realidade que muitas vezes não aparece nos discursos sobre inovação: desenvolver tecnologia custa caro. É preciso contratar profissionais qualificados, investir continuamente em pesquisa e desenvolvimento, adquirir infraestrutura, softwares e serviços, capacitar equipes e, muitas vezes, trabalhar durante anos até que um produto alcance escala; a tudo isso se soma uma carga tributária que já pesa sobre as empresas brasileiras.
É justamente nesse ambiente que chega a Reforma Tributária com a promessa central de simplificar um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. Simplificação é necessária, mas simplificar a forma de cobrar impostos não significa necessariamente reduzir aquilo que as empresas pagarão.
Para segmentos de serviços de tecnologia, esse é um ponto particularmente sensível. A regulamentação estabeleceu tratamentos diferenciados e reduções de alíquotas para determinadas atividades; empresas de serviços de tecnologia, entretanto, estão, em regra, submetidas à alíquota integral do IBS e da CBS.
Há ainda uma característica econômica importante: empresas de tecnologia e de serviços são intensivas em mão de obra, e salários não geram créditos de IBS e CBS como ocorre com diversas aquisições tributadas ao longo de uma cadeia produtiva.
Isso significa que o impacto da reforma não será uniforme. Uma empresa que compra grande quantidade de insumos tributados pode acumular créditos diferentes daqueles disponíveis para uma empresa cuja principal matéria-prima é o conhecimento de programadores, engenheiros, analistas, pesquisadores e outros profissionais.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser simplesmente tributária e passa a ser estratégica: o Brasil quer ser consumidor ou produtor de tecnologia?
Nenhum país constrói um Vale do Silício por decreto; ecossistemas tecnológicos precisam de universidades, pesquisa, capital, segurança jurídica, mercado consumidor e, principalmente, condições para que empresas nasçam e consigam crescer.
Inovar ou pagar a conta?
O Brasil possui pesquisadores de excelência, universidades reconhecidas, empreendedores e empresas capazes de desenvolver tecnologia competitiva internacionalmente; também possui programas públicos de incentivo. Mas incentivos pontuais não eliminam o problema estrutural quando o ambiente geral continua caro, burocrático e imprevisível.
O paradoxo é evidente: fala-se em transformação digital, inteligência artificial, Indústria 4.0 e soberania tecnológica, enquanto empresários precisam dedicar uma parcela crescente de energia para interpretar regras, adaptar sistemas e calcular o impacto tributário sobre suas operações.
Tecnologia precisa de investimento; dinheiro destinado ao pagamento de custos adicionais de conformidade é dinheiro que deixa de disputar espaço com contratação, pesquisa, desenvolvimento de software, aquisição de equipamentos, internacionalização e criação de novos produtos.
Existe ainda outro sinal que não deveria ser ignorado: empresas brasileiras vêm instalando operações ou estudando alternativas em outros países, especialmente no Paraguai.
O fenômeno não começou com a atual Reforma Tributária e seria incorreto atribuí-lo exclusivamente a ela; mas tributação, burocracia, custos operacionais e mudanças no sistema tributário brasileiro passaram a integrar essa equação.
Em 2026, uma consultoria especializada na instalação de empresas no Paraguai informou ter recebido cerca de 100 indústrias brasileiras interessadas no país; empresas tradicionais brasileiras já estabeleceram ou ampliaram operações do outro lado da fronteira.
O Paraguai oferece, por meio do regime de Maquila, condições tributárias particularmente atraentes para determinadas operações destinadas à exportação. Isso não significa que toda empresa brasileira possa simplesmente atravessar a fronteira e reduzir impostos, pois cada atividade possui características próprias e mudar uma operação envolve logística, mercado, mão de obra e questões jurídicas.
Mas o movimento transmite uma mensagem que não deveria ser desprezada: capital procura competitividade; tecnologia, por sua própria natureza, possui mobilidade ainda maior.
Uma fábrica precisa transportar máquinas, equipamentos e linhas de produção; uma empresa de software pode transferir parte relevante de sua operação com notebooks, servidores em nuvem e profissionais trabalhando remotamente.
Quando um país torna excessivamente caro produzir conhecimento, o risco não é perder somente empresas; é perder cérebros.
A contramão
Os Estados Unidos construíram o Vale do Silício; outros países criaram seus próprios ecossistemas.
Israel transformou ciência e defesa em um poderoso ambiente de startups; a Índia tornou-se uma potência em serviços tecnológicos; Singapura construiu um ambiente internacionalmente competitivo; países europeus disputam centros de pesquisa e investimentos em inteligência artificial.
Na América do Sul, países menores também perceberam que tributação e ambiente de negócios podem funcionar como instrumentos de atração de empresas.
E o Brasil?
Temos mercado, universidades, pesquisadores, empreendedores e uma das maiores economias do planeta; o que ainda precisamos decidir é se queremos criar condições para que nossas empresas tecnológicas cresçam aqui.
A Reforma Tributária também é política tecnológica. Essa discussão não pode se limitar à arrecadação; tributação também é instrumento de política econômica.
Quando um país decide quais setores terão tratamentos diferenciados, incentivos ou alíquotas integrais, está fazendo escolhas que influenciam investimentos futuros.
O setor tecnológico não pede ausência de impostos; empresas precisam contribuir para financiar o Estado e a sociedade. A questão é outra: qual será o custo de tornar menos competitivo justamente o setor responsável por aumentar a produtividade dos demais?
Software melhora a indústria; inteligência artificial aumenta a produtividade; automação reduz desperdícios; tecnologia transforma o agronegócio; sistemas digitais tornam governos mais eficientes; e a cibersegurança protege empresas e instituições.
Tributar tecnologia sem considerar esse efeito multiplicador pode significar enxergar apenas a arrecadação imediata e ignorar a riqueza que poderia ser criada amanhã.
A economia também depende da confiança nas instituições; o documento que deu origem a esta análise chama atenção para controvérsias envolvendo a administração pública, o INSS, o sistema financeiro, o debate sobre anistia e as tensões entre atores políticos e integrantes do Judiciário.
São assuntos diferentes e devem ser analisados separadamente, sem generalizações; mas existe um elemento que os conecta à economia: previsibilidade institucional.
Empresários investem quando conseguem avaliar riscos. Mudanças frequentes de regras, conflitos institucionais e insegurança sobre o ambiente econômico aumentam o custo das decisões.
O capital pode conviver com impostos e com governos de diferentes orientações; o que dificilmente aceita é não conseguir calcular o amanhã.
Uma escolha de futuro
O Brasil precisa arrecadar e financiar saúde, educação, segurança, infraestrutura e políticas públicas; mas também precisa produzir riqueza suficiente para sustentar tudo isso.
Enquanto algumas nações disputam quem vai desenvolver a próxima inteligência artificial, o próximo processador, o próximo sistema autônomo ou a próxima tecnologia capaz de transformar uma indústria inteira, não podemos permitir que nossos empreendedores estejam ocupados apenas tentando descobrir quanto pagarão de imposto no próximo ano.
O Vale do Silício olha para a próxima tecnologia; o Brasil não pode continuar olhando apenas para a próxima arrecadação. Porque, quando empresas, investimentos e talentos começam a procurar outros lugares para crescer, talvez não seja o empresário que esteja indo na direção errada; talvez seja o país que esteja seguindo na contramão do Vale do Silício.


