Redes empresariais transformam conhecimento, negociação e conexões em vantagem competitiva; pesquisas mostram que empresas organizadas em redes podem ampliar receitas, inovação e acesso a mercados.
Por Juba Paixão
Durante muito tempo, o associativismo empresarial foi visto quase exclusivamente como uma ferramenta de representação. Empresas de um mesmo setor se reuniam para defender interesses comuns, dialogar com governos, participar de negociações coletivas e enfrentar problemas que individualmente seriam difíceis de resolver.
A economia digital está mudando essa lógica.
Para empresas de tecnologia, especialmente as pequenas e médias, associação passou a significar também acesso a conhecimento, investidores, clientes, fornecedores, talentos, universidades, políticas públicas, mercados e oportunidades de internacionalização.
É a passagem da entidade empresarial como estrutura de representação para a entidade como infraestrutura de negócios.
Esse movimento pode ser observado no Espírito Santo pela trajetória da Associação Capixaba de Tecnologia (Act!on), que se apresenta como uma organização voltada a fortalecer negócios de base tecnológica por meio de conexões e aproximar empresas produtoras e usuárias de tecnologia, academia, startups e instituições de fomento à inovação.
A associação também ampliou sua atuação para além das empresas tradicionais de tecnologia. Em sua própria definição, a Act!on procura conectar empresas de tecnologia, startups, universidades, empresas consumidoras de tecnologia e os demais atores do ecossistema de inovação.
O conceito ganha importância em um mercado no qual uma empresa pode ter um excelente produto, mas não necessariamente possuir, sozinha, todos os recursos necessários para crescer.
Quanto uma empresa pode ganhar?
O resultado depende do tipo de associação, dos benefícios utilizados, do porte da empresa, do setor e, principalmente, da capacidade da empresa de transformar as conexões em negócios.
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) aponta entre os benefícios do associativismo a divisão de despesas, o aumento do poder de negociação, compras conjuntas, capacitação, acesso a mercados, parcerias e melhoria da competitividade. É justamente aí que está uma das principais fontes de economia.
Uma empresa que negocia individualmente determinado serviço, benefício ou fornecedor possui o poder de compra correspondente apenas ao seu próprio tamanho. Uma associação pode reunir dezenas ou centenas de empresas e transformar uma demanda fragmentada em uma demanda coletiva.
O resultado pode aparecer em descontos, melhores condições comerciais, redução de custos administrativos, compartilhamento de conhecimento e diminuição do tempo necessário para encontrar fornecedores, parceiros ou soluções.
A conta correta é: economia obtida + negócios gerados + custos evitados + conhecimento adquirido + oportunidades acessadas − custo da associação.
Uma das evidências internacionais mais interessantes foi produzida pelos economistas Jing Cai e Adam Szeidl.
Em um experimento realizado na China, os pesquisadores selecionaram aleatoriamente 2.820 micro, pequenas e médias empresas e criaram grupos de empresários que passaram a realizar reuniões mensais durante um ano.
O resultado foi significativo: as empresas participantes tiveram aumento de 8,1% nas vendas, além de crescimento nos lucros, número de clientes e fornecedores, acesso a empréstimos, investimentos em fatores produtivos e qualidade da gestão.
Mais importante: o efeito não desapareceu quando o programa terminou.
Um ano depois, as empresas continuavam apresentando resultados superiores. A estimativa de longo prazo apontou um efeito de aproximadamente 10,3% sobre as vendas.
Os pesquisadores identificaram dois mecanismos principais:
O primeiro foi aprendizado. Empresários passaram a compartilhar informações relevantes sobre gestão, crédito, fornecedores, clientes e oportunidades. O segundo foi formação de parcerias. A convivência regular aumentou indicações e relacionamentos entre empresas.
O estudo também concluiu, em uma estimativa de custo-benefício, que os ganhos de lucro foram aproximadamente duas vezes superiores aos custos de organização e participação nas reuniões.
É uma evidência importante porque demonstra que networking empresarial pode deixar de ser uma atividade social e transformar-se em uma variável econômica.
O associativismo também pode acelerar a inovação
Outro estudo, publicado na China Economic Review, analisou empresas de pequeno e médio porte e encontrou associação entre participação em redes de entidades empresariais e maior inovação.
A pesquisa identificou que a participação em redes empresariais e tecnológicas podia ampliar a inovação das empresas, enquanto a inovação, por sua vez, estava relacionada a melhor desempenho empresarial e maior eficiência.
O fenômeno é particularmente relevante para empresas de tecnologia. Uma startup dificilmente terá dentro de sua própria estrutura todo o conhecimento necessário sobre inteligência artificial, mercado financeiro, legislação, propriedade intelectual, vendas, internacionalização, cibersegurança e captação de investimentos. Ela precisa de uma rede.
É justamente essa lógica que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca em seus estudos sobre pequenas e médias empresas. Segundo a OCDE, redes empresariais permitem às PMEs superar limitações relacionadas ao tamanho e acessar conhecimento, tecnologia, dados, competências, parceiros comerciais e financiamento.
A organização também destaca que essas redes podem gerar economias externas de escala, reduzir custos de criação de conhecimento e aumentar a capacidade de inovação e crescimento.
O Brasil já possui uma cultura de redes, mas precisa avançar. O associativismo empresarial possui uma longa tradição. Federações, sindicatos patronais, associações comerciais, entidades setoriais e organizações de tecnologia construíram, ao longo das décadas, canais de representação e defesa de interesses.
A transformação está em fazer essas estruturas funcionarem também como plataformas de negócios e inovação.
Uma evidência importante aparece na Pesquisa de Inovação Semestral (PINTEC Semestral), do IBGE em parceria com a Agência Brasileirade Desenvolvimento Industrial ( ABDI) e o Instituto de Economia da UFRJ. Na edição mais recente, referente a 2024, 32,9% das empresas inovadoras da indústria brasileira realizaram algum tipo de cooperação para inovar.
Entre as empresas com 500 ou mais pessoas ocupadas, o percentual chegou a 50,3%. Os dados mostram que a cooperação ganha força à medida que aumenta o porte das empresas, envolvendo fornecedores, clientes ou consumidores, consultorias, instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação, startups e outras empresas.
O dado ajuda a explicar por que o associativismo contemporâneo não pode ser limitado à relação empresa-entidade.
O futuro está na conexão empresa + empresa + universidade + governo + investidor + mercado.
Espírito Santo: de mercado regional a plataforma de conexão
É nesse cenário que o estado possui uma oportunidade particular. Apesar de ser um dos menores estados brasileiros em território e população, o estado possui um ecossistema tecnológico conectado a universidades, instituições de pesquisa, indústria, startups, fundos, investidores e programas públicos de inovação.
A Act!on vem atuando justamente nesse espaço. A entidade informa que atualmente reúne cerca de 150 associados ativos e que sua transformação de sindicato empresarial para associação ampliou a agenda de serviços, parcerias, eventos, capacitações e conexões.
A representação regional da Assespro também ampliou esse alcance. A Act!on passou a representar oficialmente a Assespro no Espírito Santo em 2023, conectando o estado a uma entidade nacional que reúne mais de 2.500 empresas associadas em 14 estados, segundo informações divulgadas pela própria Act!on.
Para uma empresa capixaba, essa conexão muda a escala do mercado.
O empresário deixa de pensar apenas:
“Como vender meu software no Espírito Santo?”
E passa a pensar:
“Como utilizar o Espírito Santo como base para vender para o Brasil e para o mundo?”
O novo desafio: internacionalizar
O associativismo também pode funcionar como ponte para a internacionalização
Um estudo brasileiro sobre associativismo empresarial como ferramenta de internacionalização, realizado a partir de um núcleo de comércio exterior de uma associação empresarial de Santa Catarina, mostrou como núcleos setoriais podem criar espaços permanentes para discussão, troca de experiências e planejamento de estratégias de entrada em mercados externos.
Para o setor de tecnologia, essa possibilidade é ainda maior. Uma empresa brasileira pode desenvolver software em Vitória, vender para São Paulo, hospedar sua infraestrutura em nuvem internacional, contratar profissionais em diferentes estados e atender clientes nos Estados Unidos, Europa ou Ásia. A geografia deixou de ser uma barreira tão forte, mas a conexão continua sendo determinante.
A OCDE chama atenção justamente para esse fenômeno. As pequenas e médias empresas dependem cada vez mais de redes externas para obter recursos estratégicos como conhecimento, tecnologia, financiamento e competências. Essas redes podem envolver fornecedores, clientes, universidades, centros de pesquisa, governos, multinacionais, investidores e outras empresas.
“O Espírito Santo pode aproveitar essa transformação para construir uma estratégia própria”

O diretor-presidente da Act!on, Niase Borjaille, destaca o fortalecimento das empresas de tecnologia com a união:
Para empresas de tecnologia, isso significa que competir globalmente não depende apenas de desenvolver o melhor produto. Depende também de estar conectado ao ecossistema certo. O Espírito Santo pode aproveitar essa transformação para construir uma estratégia própria”, enfatiza Niase.
Borjaille complementa que o primeiro caminho é conectar empresas que desenvolvem soluções diferentes podem se tornar parceiras, fornecedoras ou até criar produtos conjuntos.
O segundo é aproximar empresas e universidades. O estado possui instituições capazes de formar talentos e produzir conhecimento que pode ser transformado em produtos e serviços.
O terceiro é ampliar a conexão com investidores. A aproximação entre startups, investidores anjo, fundos e grandes empresas pode reduzir uma das principais barreiras ao crescimento das empresas de tecnologia: capital para escalar.
O quarto é fortalecer a internacionalização. Empresas capixabas que já possuem produtos competitivos precisam ser estimuladas a pensar desde cedo em mercados externos, certificações, propriedade intelectual, idiomas, vendas internacionais e modelos de distribuição.
O quinto é trabalhar a inteligência coletiva. Uma entidade empresarial moderna pode funcionar como uma espécie de radar: identificar mudanças regulatórias, novas tecnologias, oportunidades de financiamento, tendências de mercado, programas públicos e movimentos de grandes empresas antes que essas informações cheguem individualmente a cada empreendedor.
O associativismo empresarial do século XXI não é simplesmente colocar empresas em uma sala. É criar confiança suficiente para que elas compartilhem conhecimento, encontrem parceiros e construam negócios.
A pesquisa de Cai e Szeidl ajuda a colocar números nessa ideia: uma rede empresarial organizada produziu 8,1% de aumento nas vendas no primeiro ano e efeitos de longo prazo próximos de 10,3%.
Outro indicativo demonstra que o resultado talvez mais importante seja outro. Os empresários não cresceram apenas porque participaram de reuniões; eles cresceram porque passaram a conhecer pessoas que sabiam coisas que eles não sabiam, tinham recursos que eles não tinham e possuíam conexões que eles ainda não possuíam.
É essa a grande mudança de paradigma. No passado, a vantagem competitiva estava em possuir mais máquinas, mais capital ou mais funcionários. Na economia digital, uma parte crescente da vantagem está em estar conectado às pessoas certas.
Para o Espírito Santo, esse pode ser um dos caminhos para transformar um mercado regional em uma plataforma nacional de tecnologia. Para as empresas capixabas, talvez a pergunta mais importante já não seja quanto custa associar-se. A pergunta é: quanto pode custar ficar de fora da rede?
Fontes:
Cai, Jing; Szeidl, Adam — “Interfirm Relationships and Business Performance”, The Quarterly Journal of Economics, 2018;
OECD — SME and Entrepreneurship Outlook 2023;
IBGE — Pesquisa de Inovação Semestral 2024;
Sebrae — Associativismo;
China Economic Review — Industry association networks, innovations, and firm performance;
Estudo brasileiro sobre associativismo e internacionalização;
Estudo brasileiro de 2026 sobre organizações coletivas.


